9 de nov de 2006

Santo António e os peixes...

Este post acaba por ser fruto de uma parceria com uma das alunas com mais anos de Clube de Arqueologia, a Alexandra Silva. Depois de ter tirado uma fotografia na Quinta da Regaleira, na visita de 4 de Outubro, a uma imagem de um tal Santo António a pregar aos peixes (como eu o compreendo...) e ter ocorrido em conversa com a Xana a realização de uma reflexão dela pela temática...coloquei-lhe o desafio: uma fotografia minha e um texto dela, naquele que acaba por ser o "nosso" blog!

Há cerca de 300 anos, a 18 de Julho de 1697, a voz de um dos maiores oradores e visionários portugueses de todos os tempos calava-se para sempre. Um estranho padre jesuíta de nome António Vieira revelou-se não só um missionário, pregador e moralista, mas também um homem dos corredores do poder, um misto de confessor e conspirador que, através dos seus famosos sermões, mostrava ao mundo os seus próprios males.
“O sermão de Santo António aos peixes” foi enunciado pela primeira vez em São Luís do Maranhão, como forma de protesto contra a desumanidade como os colonos tratavam os índios brasileiros. Tal como Santo António fez em Arimino, também Vieira mudou o púlpito e resolveu pregar aos peixes que, ao contrário dos Homens, o ouviam sem se insurgirem.
No Sermão deparamo-nos com uma questão fulcral: se há tantos pregadores nesta Terra cuja função é preservar o bem e repreender o mal na vida dos Homens, como pode a Terra encontrar-se tão corrupta?
Pois bem, ao fim de três centenas de anos, e quer nos surpreendamos ou não, continuamos com problemas semelhantes! Afinal, actualmente assistimos a inúmeras situações de escravatura (tal como os índios do Maranhão) e a diversos casos em que os ditos pregadores não estão a cumprir a sua missão. Se não, que credibilidade pode ter um sacerdote acusado de abusar sexualmente de uma criança ou uma autoridade que se deixa silenciar por dinheiro?
Basta folhear um jornal, ou ligar o televisor para perceber que algo não está bem: como pode ser possível que, em pleno século XXI, ainda haja seres humanos a serem cruelmente explorados, como uma mulher que é explorada sexualmente, um emigrante que, aliciado por uma vida melhor, acaba por se enredar nas malhas da corrupção em proveito de outrem ou uma criança que trabalha de sol a sol, sendo privada da infância que, como tal, merece.
Em suma, ainda agora as palavras de Vieira caminham pelo tempo. Ontem como hoje o mundo resiste à mudança: os Homens por aí continuam, surdos a sermões, os pregadores alheios à verdadeira doutrina a pregar e os peixes, esses, apenas ouvintes, parcialmente atentos, às palavras citadas.
“Palavras sem obras são como tiros sem bala: atroam mas não ferem” – meditemos apenas nestas palavras proferidas por Pe. António Vieira.
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8 comentários:

Anônimo disse...

com que entao un sermao aos peixes ,espero que amanha nao seja a nos.
miguel,8c

al cardoso disse...

Sim de facto de pouco vale pergar, se o proprio pregador com obras nao der exemplos para as suas pregacoes.
Nao creio que Antonio Vieira tenha sido desses.
Foi isso sim, muitissimo imcomodado pela inquisicao, pela suas accoes em defeza dos indios e dos judeus.

Tozé Franco disse...

Também eu sei o que é "pregar aos peixes".
Queria publicamente dar os parabéns ao autor pelos excelentes posts que tem partilhado connosco e hoje, de uma maneira muito especial, com a Alexandra pelo magnífico texto que escreveu e pela pertinência das reflexões que aí faz.
Parabéns mais uma vez.

foreveryoung disse...

Mais uma vez gostei de saber um pouco mais sobre história!
E é bem verade que se continua a ver que hoje em dia algo não está bem... e o problema é concerteza de todos nós, pregadores e ouvintes do que se prega... há mesmo que mudar algo!
Bjs

al cardoso disse...

Saindo um pouco do tema, para quando uma volta arqueologica pelas "Terras de Algodres"? creio que haveriam de gostar.

Um abraco e bom fim de semana.

Moura disse...

Caro Al Cardoso,
já faltou mais para percorrer os caminhos até Fornos de Algodres. Graças a esta nossa ligação virtual o desejo de lá ir tem sido grande.
Só falta mesmo tempo nesta fase do ano lectivo. Em Dezembro parece ser mais fácil.
Um abraço

Badala disse...

Às vezes penso que a maldade é uma característica humana e será sempre assim, por mais que os séculos passem. Parabéns à escritora.

N disse...

Actualidade e verdade. É com efeito o que podemos encontrar nos escritos de Vieira sj. E foi precisamente isso que a Alexandra (eu conheço essa menina!)sublinhou no seu texto. Parabéns! Não resisto a louvar esta iniciativa que de forma tão antipodal se apresenta em relação à exposição fútil e aviltante em que engrenam alguns dos nossos adolescentes, num ou noutro fotolog.
E já agora, acompanhando de perto os juízos deste santo, num mundo em que o Homem explora o seu igual porque o considera inferior, em que a vaidade, o orgulho, o parasitismo, a ambição e até a traição motivada pelos interesses individuais ainda marcam (e de que maneira) presença, faço votos para que cada um de nós, fiéis leitores dos posts dete blog de qualidade irrefutável, à semelhança dos Jesuítas que sempre defenderam a liberdade dos Índios, com discernimento, nos mantenhamos LIVRES, com toda a responsabilidade que isso vai implicando.